Nesta edição:

  • Vício alimentar acelera gordura visceral em jovens, e o IMC não vê

  • Justiça obriga planos a aplicar reajuste ANS em falsos coletivos: o que muda na cobertura de obesidade

  • CFM proíbe PMMA em procedimentos estéticos a partir de 2 de junho

  • Notre-Dame, Rick Rubin e a soft-skill que destrava carreira

O cenário:

Um estudo publicado na Obesity acompanhou 1.601 jovens por até doze meses e encontrou algo desconfortável: o risco de vício alimentar acelerou o acúmulo de gordura visceral, mas o IMC não se mexeu.
O dado que mais importava estava invisível no exame de rotina. A gordura que adoece o adolescente avançava enquanto o número que o médico usa para medir risco continuava parado.

O movimento

O estudo da Obesity (Silver Spring), conduzido pela Universidade de Zhejiang com participação de Marc Potenza, de Yale, integrou levantamento transversal, seguimento longitudinal de 6 e 12 meses e uma amostra independente de ressonância magnética.

Em 1.601 jovens com idade média de 12,69 anos, o vício alimentar mediou a relação entre motivação para comer e ganho de peso, e o comer com atenção plena funcionou como fator de proteção. (Fonte: Obesity (Silver Spring), 31/05/2026, DOI 10.1002/oby.70225).

O achado central é o que muda a conduta: o vício alimentar previu aceleração de gordura corporal e de gordura visceral, mas não previu mudança no escore z de IMC. Na amostra de ressonância, o volume de substância cinzenta da ínsula esquerda apareceu menor em quem tinha mais risco de vício alimentar e maior em quem comia com atenção plena. A neurobiologia da obesidade começa na adolescência, não na vida adulta, e o IMC isolado chega tarde demais para registrá-la.


A segunda notícia mexe no dinheiro antes de mexer na clínica. Decisões judiciais de primeira e segunda instância determinaram que operadoras apliquem aos contratos de falso coletivo os mesmos índices de reajuste da ANS válidos para planos individuais e familiares. (Fonte: Folha de S.Paulo, Equilíbrio e Saúde, jun/2026).
Parece vitória do consumidor, e em parte é. O efeito de segunda ordem é menos óbvio: esses contratos costumavam carregar a cobertura de medicamentos de alto custo, incluindo análogos de GLP-1 obtidos por autorização judicial. Com o teto de reajuste comprimindo a margem da operadora, a resposta provável é revisão de cobertura e aumento de glosas.

Quem prescreve semaglutida ou tirzepatida por essa via precisa monitorar as autorizações nos próximos sessenta dias, porque a conta vai ser refeita do outro lado.


A terceira notícia tem data marcada. A partir de hoje, com publicação no Diário Oficial, o Conselho Federal de Medicina proíbe o uso de PMMA, o polimetilmetacrilato, como substância preenchedora em procedimentos estéticos ou reparadores, para todos os médicos do país. (Fonte: Folha de S.Paulo e CFM, mai/2026).


A resolução tem força normativa imediata, e o impacto maior não está em quem ainda aplicava o produto. Está na coorte silenciosa de pacientes que já têm o material no corpo e que chegam ao consultório anos depois com granuloma crônico, biofilme e inflamação tardia, sem conectar o sintoma ao procedimento. O médico que não perguntar de forma ativa sobre preenchimento permanente vai tratar a consequência sem enxergar a causa.


As três notícias compartilham a mesma mecânica. A gordura visceral que o IMC não vê, a cobertura que a letra miúda do contrato esconde, a complicação que aparece anos depois da agulha. O risco real estava fora do campo de visão habitual, e quem só olha para o indicador de superfície decide com a informação errada.


Mercado não avisa. Mercado move.

564 JOVENS, 12 MESES, IMC PARADO

No braço longitudinal do estudo da Obesity, o vício alimentar previu aceleração de gordura visceral ao longo de um ano sem alterar o escore z de IMC. O indicador mais usado no consultório foi o que menos enxergou o risco.

Fonte: Obesity (Silver Spring), mai/2026

Mercado e marca

Faz seis anos que a Catedral de Notre-Dame pegou fogo. Muita gente ficou arrasada com a notícia, e eu também fiquei. Tinha passado por Paris pouco antes e dispensei a visita, só passei em frente, com aquela certeza preguiçosa de que igrejas icônicas estão sempre lá, esperando.

Igrejas queimam. Museus queimam. Prédios caem, cidades alagam. É a história acontecendo diante dos nossos olhos, e tudo que esteve ali funcionando sem grandes surpresas pode sofrer um desastre que não deveria acontecer, mas acontece.

Naqueles dias eu estava lendo "O Ato Criativo: Uma Forma de Ser", do Rick Rubin. O livro insiste em algo incômodo: a nossa aversão ao risco se disfarça de prudência quando dizemos que sempre funcionou assim. Comecei achando o cara completamente maluco e terminei querendo tatuar cada página. Uma das melhores leituras do ano.

Em novecentos anos a catedral nunca havia sido destruída, e quase foi. Na restauração entraram sistemas de segurança e combate a incêndio que antes não existiam, e Notre-Dame reabriu tão bela quanto sempre foi e mais segura do que jamais esteve. Às vezes o que queimou consegue ser salvo, e às vezes ele volta melhor do que era.

Tenho conversas com clientes que enfrentam desafios de negócio em 2026. Alguns até chegaram a perder parte da reserva mesmo fazendo tudo como sempre fizeram. É como se a igreja deles tivesse queimado. Nada do que fizeram enquanto tudo rodava estava errado, afinal tudo rodava, e é justamente quando tudo funciona que existe folga para arriscar em ações novas, de segurança ou de crescimento.

Quando tudo começa a dar errado, a gente cria e melhora por obrigação. Quando tudo vai bem, deixa de implementar novidade em nome da máxima de não mexer em time que está ganhando. O problema dessa lógica é que ela só entrega a conta no dia do incêndio, quando já não há folga para reagir com calma. Num desses casos, a estratégia de produto estava redondíssima, faltou apenas investir de forma mais agressiva em aquisição de público para descobrir o limite real das campanhas enquanto sobrava caixa para testar.

Para o médico, a leitura é a mesma das três notícias desta edição. A agenda cheia de hoje é a igreja em pé. A cobertura de GLP-1 que sustenta parte dos seus pacientes pode ser revista por uma decisão judicial, a técnica estética que você dominava pode ser proibida por resolução, e o protocolo que você repete há anos pode envelhecer sem aviso. O incêndio não pede licença, e a hora de instalar o sistema antifogo é antes dele, não durante.

Não faz tanto tempo que percebi o tamanho do poder que uma soft-skill básica tem sobre a vontade de testar e propor coisas novas na carreira. Em dezoito anos de marketing e comunicação, ignorei essa habilidade por quase metade deles. A habilidade é oratória.

Oratória não resolve só dicção. Ela organiza e manobra ideias, gera clareza entre quem explica e quem escuta, e essa clareza é o que faz um projeto novo ser aprovado mais rápido e uma consulta render menos frustração.

Para o médico vale igual, quanto mais claro o profissional explica o próprio diferencial, menos ele depende de volume de post para ser lembrado.

Três ações para esta semana.

Primeira: abra seu perfil profissional e leia os últimos 10 posts como se fosse um paciente que nunca te viu. Você marcaria consulta com você? Se a resposta não for um sim imediato, o problema não está no algoritmo.

Segunda: escreva em uma linha só o que você faz melhor que 90% dos colegas da sua especialidade na sua cidade. Se não conseguir completar a frase, você ainda não resolveu a primeira camada.

Terceira: procure 3 colegas que você admira e pergunte como eles decidem o que publicar. Os melhores que conheço não seguem calendário editorial. Seguem convicção clínica.

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